Cartografia do contemporâneo: o intempestivo em Giorgio Agamben

Pensar o contemporâneo é, antes de tudo, colocar-se numa situação de quebra, fratura, desligamento. Contemporâneo é um estado de espírito, uma condição: de forma alguma pode ser tido como um dado temporal. As reflexões a que este texto propõe dar ressonância estão embasadas no pensamento de Giorgio Agamben[1] e funcionam, aqui, como uma cartografia do seu texto, um apanhado geral de ideias que servem, no propósito a que nos dispomos[2], pensar a arte e o mundo em que vivemos. A discussão gira em torno dos conceitos de intempestivo, escuridão e arcaico, que serão explicitados em seguida.

A pergunta que inicia e, de toda forma, encerra a discussão é: “o que significa ser contemporâneo?”. Neste caso, devemos pensar mais especificamente “de quem e do que somos contemporâneos?”. A primeira resposta a isso, Agamben sugere que venha de Nietzsche.  Para este autor, a contemporaneidade é uma condição intempestiva: está dada numa relação de desconexão e dissociação com o tempo presente. Somente aqueles que estão afastados do seu tempo (mas não de forma nostálgica), apreendem sua própria especificidade. Dessa forma, diz-nos Agamben, “a contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distancias”.

aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela

Este caráter intempestivo observado por Nietzsche, esse movimento de desconexão e dissociação é também representado por outra imagem, proposta pelo poeta Osip Mandel´stam: o tempo presente é uma vértebra quebrada, e ser contemporâneo é exatamente estar localizado nesta vértebra.

Partindo para uma segunda definição do que é contemporâneo (melhor se dissermos uma segunda camada da mesma definição), Agamben sugere uma relação com o escuro: “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Portanto, conseguir ver nessa obscuridade é a condição de ser contemporâneo ao seu próprio tempo. Tendo em mente que o escuro do tempo não é uma ausência e sim uma construção histórica, podemos entender que ser contemporâneo é justamente “neutralizar as luzes que provém da época para descobrir as suas trevas, o seu escuro especial, que não é, no entanto, separável daquelas luzes”. Essa afirmação encontra-se fatalmente presente em nosso tempo: perceber o que há no “escuro” da comunicação ao neutralizar as luzes excessivas da televisão; entender o silencio, quando a música está exageradamente alta; as relações sociais, enquanto todos se evitam por pressa; a arte, enfim,  quando o que há de produção artística é um sem-fim de lugares comum.

É assim que Agamben nos sugere, de forma intimidadora, que ser contemporâneo é, sobretudo, uma atitude de coragem, nada mais que “ser pontal num compromisso ao qual se pode apenas faltar”. Faltar ao tal compromisso é justamente a atitude natural de uma vida cotidianizada, tendo em vista que tal compromisso (o tempo presente) é algo inevitavelmente inapreensível. O caráter fugidio do contemporâneo pode ser ilustrado com uma rápida reflexão sobre a moda: esta é, de toda forma, alguma categoria vazia de tempo e espaço. A moda é algo que ao ser elaborado já passou, “o “agora” da moda, o instante em que esta vem a ser, não é identificável através de nenhum cronómetro”. Dizer-se “estar na moda”, portanto, é em si um contrassenso, tendo em vista que a moda não é algo estático e dado, encontra-se em contínua mutação, assim como o tempo.

Estando o tempo, como vimos com a moda, dado numa relação de contiguidade (e, por isso mesmo, fugidio, inapreensível), estabelece-se uma relação fundamental entre o tempo presente e passado: esta relação se dá através do arcaico[3]. Aqui se estabelece o terceiro nível da definição do contemporâneo proposto no texto, e se dá no sentido de que ser contemporâneo é perceber essa relação do tempo presente e o passado, estabelecido como origem, já que essa origem “em nenhum ponto pulsa com mais força do que no tempo presente”.

Através de apontamentos do texto Agamben (não substituindo, de forma alguma, a leitura do original, que além de mais bela é muito mais completa), pretendemos dar conta de pensar o que é o contemporâneo e de como este termo pode ser aplicado ao pensar a arte. Concluímos, porém, com uma citação do próprio autor:

Isso não significa que o contemporâneo não é apenas aquele que, percebendo o escuro do presente, nele apreende a resoluta luz; é também aquele que, dividindo e interpolando o tempo, está a altura de transformá-lo e de coloca-lo em relação com os outros tempos, de nele ler de modo inédito a história, de “citá-la” segundo uma necessidade que provém de maneira nenhuma do seu arbítrio, mas de uma exigência à qual ele não pode responder. É como se aquela luz invisível, que é o escuro do presente, projetasse a sua sombra, adquirisse a capacidade de responder às trevas do agora.


[1] AGANBEM, Giorgio. O que é contemporâneo? In O que é Contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009.
[2] Texto produzido pelo CAD MAMAN – Coletivo Acervo em Diálogo do Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães – Recife.
[3] “Arcaico significa: próximo da arké, isto é, da origem”.

Texto do CAD no “Caderno de Anotações” do MAMAM

O CAD, no primeiro semestre de 2011, à convite do Setor Educativo do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM), colaborou com a elaboração de um breve ensaio sobre a produção do artista visual Rodrigo Braga. O texto, escrito coletivamente pela equipe do grupo de pesquisa, intitulá-se “Rodrigo Braga: caça de si e do mundo como geografias de descobertas, intervenções e apropriações” e está presente na publicação desenvolvida pelo Setor Educativo do Museu chamada Caderno de Anotações”. O material é um livrinho que possui como objetivos centrais auxiliar educadores, estudantes e público em geral com informação e discussões sobre as exposições em cartaz no Museu. Na primeira edição, dedicada a exposição “Ciclos Alterados” de curadoria do crítico Paulo Herkenhoff, o leitor poderá encontrar textos do curador, do CAD, do próprio Educativo do Museu, um bate-papo com o artista e imagens de algumas das obras presentes na exposição. Para acessar o material clique no link abaixo:

Caderno de Anotações v. 1

CAD abre seleção de vagas para pesquisadores